sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

a vida é sem final feliz

A cena é a seguinte: é uma sexta-feira de verão, três amigas sincronizadas, dividindo risadas lá do alto do pedestal da alegria, depois de um belo almoço num restaurante japonês. Elas estão num carro, descendo uma rua pacata na volta para o trabalho. Um jovem apressado num carro de trás as acelera e as ultrapassa com certa violência. A amiga número um, grávida, diz “se fosse eu, correria atrás dele para xingar”. A amiga número dois, motorista do veículo, responde “o que? eu vou me estressar por causa de um bosta desses? nem –a–pau!”. As três dão mais risadas e continuam o percurso.

Um cruzamento se passa e é chegada a esquina final da rua, onde as meninas devem virar a direita. A moça ao volante pára para os pedestres passarem. No outro sentido da rua há um carro atravessado e um sinal de acidente pequeno, mas a garotinha mulata sorridente que atravessava na faixa de pedestres vestida de branca-de-neve despertou comentários e olhares carismáticos das amigas.

A amiga número dois ouve o barulho de uma marcha sendo duramente engatada na ré. O carro que estava atravessado na rua agora acende suas duas luzes traseiras brancas e segue de costas ao encontro do carro das amigas. A motorista, vendo o desastre, buzina. O motorista não ouve, não olha, não pára. Ele bate na lateral e amassa o carro das amigas.

Ele desce do carro para conversar, diz que vai pagar o concerto, mas não quer dar o número do RG. Argumenta que o carro é dele, que ele mora em Osasco, que quer pagar o estrago. A amiga número três, já sem paciência, sugere que todos se dirijam, então, até a delegacia que não era distante de lá. O motorista diz que quer resolver na conversa e, depois de bate boca, as amigas anotam o número do homem, que agora precisava discutir com o motoqueiro com quem também tinha se envolvido num acidente minutos antes.

Mais tarde, as amigas descobrem que o carro não era do senhor que alegou ser, era alugado. Ele deu o telefone errado e, aparentemente, se safou dessa. As amigas ganharam irritação e um prejuízo.  O fim dessa cena não tem final feliz. Muito pelo contrário: as “mocinhas” deixaram de avistar até de longe aquele pedestal de alegria e o “bandido” deve estar, até hoje, se divertindo com a bela da passada de perna que conseguiu dar nessa sexta-feira de verão.

A moral dessa crônica, essa humilde autora lhes deverá. Pois pior do que ver sumir a alegria que tinham naquela tarde de sexta-feira, ou pior do que a lesão financeira, é fazer notar de que não valeu em nada estar alegre, ter boas energias,  dirigir decentemente ou, ao menos, serem honestas. Nada de certo que elas fizeram naquela cena fez com que algo de bom lhes ocorresse. Então concluo – tristemente, concordando com a imoralidade vivida – que a vida é sem final feliz.

Um comentário:

Fernanda Bloise disse...

Eu sei que "estar bem" não é um decreto mas os problemas e adversidades fazem parte né flor... A felicidade que margeia sua vida é infinitamente superior e nós sabemos.
te amo